sábado, 9 de janeiro de 2010

Espécie de Revolução

"Come so far, there's no going back
All this time we've been running from it
And where we are, and where we're going to
We'll organise a sort of revolution"
- Fink - Sort of Revolution

Pontos de viragem. De revolução. É disto que se trata. Quando achamos que estamos perdidos, ou quando estamos quase a entrar na resignação pura, algo muda. A inspiração de que precisamos, nas formas mais inesperadas. Aqueles dois segundos antes de um acidente, cinco segundos de um primeiro beijo, hora e meia de um filme, dias de recuperação. Uma frase numa parede, um sorriso, um gesto. Qualquer coisa pode mudar as nossas circunstâncias. É preciso, só, que o deixemos acontecer.

Quanto a mim, a frase na parede quase que o fez, mas foi preciso uma maleita para me lançar verdadeiramente.

E quanto a vocês? Qual foi o vosso ponto de viragem? Qual foi o vosso ponto de partida para a vossa espécie de revolução?

Eu sou o Homem do Meio. Até um dia.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Keep Me Where The Light Is - Parte 2

Posso dizer que estava ao lado dele. Embora não me visse, eu estava lá. E não foi uma viagem fácil para nenhum dos dois. Não que a velocidade fosse abusiva. Nem as manobras irresponsáveis. O que mais me preocupava eram as lágrimas que lhe caíam pela face. Os maxilares cerrados. A respiração acelerada. A seriedade assustadora. Ele estava determinado a esquecer tudo. Um novo começo, pensou. Por isso fugiu. Não que a palavra lhe agrade. Mas foi isso mesmo que aconteceu. Uma fuga. Amanhece agora, quilómetros e quilómetros volvidos, e mesmo quando o sol estiver alto, ninguém vai saber onde ele está. “Eu fico bem. Não me procurem. Darei notícias.” Eram as frases que ocupavam o bilhete deixado na mesa da cozinha, e uma meia dúzia de emails enviados.

À chegada, ao entrar na garagem vazia, a dor é agora acompanhada por raiva. Na casa que tinha comprado para ela. Para ambos. Onde os passos ecoam no soalho. Onde pela janela entra a luz do sol e forma uma única sombra. Onde as malas só trouxeram os pertences de uma única pessoa. O indispensável e uma guitarra. Essa já fora do saco quando ele se sentou na única peça de mobiliário ali presente. Um banco de madeira. O início da terapia, que rapidamente se tornou o fim. A cada acorde, que devia afastar a dor, como aconteceu vez após vez, mais sofrimento. Mais raiva. Memórias. Uma discussão. Um acidente. Lembranças que trazem todos os detalhes. Traição. Uma morte. E tudo acabou aí. No chão se juntam bocados da guitarra. Agora como o seu coração: despedaçada.

Determinado a fazer aquela a sua morada. Não só no papel. Determinado a acabar com o eco, passou o resto do dia a receber a mobília. Entregas, papéis, enganos, a distracção que ele precisava. Um jantar solitário. Em silêncio. Mais calmo. Sem dúvida, mais calmo. No fim, a apatia deixou-o de cabeça em cima dos braços, ainda sentado à mesa. E daí até ao chão. Encostado à parede. Mesmo ao lado da porta que o separa da rua. Olha a guitarra. No mesmo sítio. Ainda despedaçada. O cansaço faz com que os olhos se fechem. Ao longe, uma melodia, talvez do outro lado da rua. Alguém mais partilha o seu gosto pela música. Uma voz feminina. Uma voz desconhecida. Leva a sua mão até à fechadura. Abre ligeiramente a porta, só para ouvir melhor. Naquele alpendre mal iluminado ela canta:

- Keep me where the light is - repetidamente, ao mesmo tempo executa acordes perfeitos, acordes que esperam, que vêm na altura em que deviam...não antes...não depois...

A mesma mão que abriu a porta apaga agora a luz.

- Keep me where the light is.

É ali que ele dorme hoje. Até porque a cama ainda não chegou. E porque aquela voz lhe transmite a paz que ele precisa.

- Keep me where the light is...


Eu sou o Homem do Meio. Até um dia.

Ano novo, música antiga

Jeff Buckley. Enough said.

Jeff Buckley - Last Goodbye


Eu sou o Homem do Meio. Até um dia.