quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cura

Os sintomas são claros e mesmo antes de aparecerem já tens a suspeita da carga que trazem.
Começa pela agitação. As ideias que correm na tua mente, as linhas de pensamento, as frases que tomam forma.
Segue-se o aperto do estômago, quando tudo parece estar alinhado, princípio, meio, fim. Ganhas a percepção que algo se está a formar e até a sensação de estranheza face a esta inusitada definição de espírito.
Depois vem o medo que te fuja a concentração, o raciocínio. Por serem raros momentos como estes não te dás ao luxo de deixar que passe sem retirares proveito e assim se segue a urgência de o tornares permanente, de lhe dares fisicalidade. 

Sentas-te. Agarrado à caneta, ao papel, está na hora de libertares parte do veneno que te corre nas veias e te trouxe a este estado de graça. Chega a altura de deixares que esses fantasmas assombrem paragens onde a tinta se une com o papel. Quem sabe, onde as letras ganham brilho até.

Pelo menos até amanha,
o Homem do Meio.

sábado, 2 de abril de 2011

Conheces?

Sabes quem eu sou? Conheces a minha história? Sabes do que tenho saudades? Sabes como me sinto quando caminho para casa? Sabes a primeira coisa que faço quando me levanto e a última antes de me deitar? Conheces a música que ouço? Os livros que me rodeiam? Os filmes que me fazem companhia?

Sabes o quanto mudei? O que penso do passado? O que espero do futuro? Conheces os meus amigos? Talvez de nome?

Conheces os sítios onde vou? Aqueles que me preenchem?
Conheces as linhas da minha cara? As minhas cicatrizes?
Conheces os contornos da minha letra?

Tudo isto é supérfluo, mas a lista podia perfeitamente continuar. Há muitas mais perguntas a fazer. Falha-nos o propósito. A pergunta verdadeiramente importante é apenas uma, e diz tudo aquilo que preciso de saber:

Estás disposta a descobrir?

De Janeiro de 2010, acabado em Abril de 2011,
o Homem do Meio.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Closing Doors

Lembro-me do dia em que a porta de saída se abriu.

Lembro-me das luzes da cidade. Muito vagamente do que foi dito (talvez porque o silêncio não marca). Lembro-me de implorar ao meu pé direito que se comportasse.

Lembro-me das traduções incertas que nunca o deviam ter sido, levando ao "não" e ao "afasta-te", em vez de tudo o resto. Lembro-me das excepções que abri às minhas próprias regras. Lembro-me de lutar, finalmente, por alguma coisa. Lembro de fazer o que não fazia há anos.
Aquilo de que me devia lembrar, e que não consigo; aquilo que teria sido o marco de um final prolongado e passou despercebido; aquilo que me poupava a paciência; era o raio da porta a fechar.

Mas parece que nenhuma porta se fecha com estrondo suficiente,
o Homem do Meio.