quarta-feira, 6 de março de 2013

A Dúvida


Peço desculpa. Hoje não estou nos meus dias. Ontem sim, ou anteontem. Desculpem. Desculpem hoje não ser dos meus dias. Mas isto estava marcado para hoje, tem de ser hoje. Peço desculpa. Porém, tive uma ideia, que me parece que não é para desprezar. Não me lembro do que tinha de dizer. Quer dizer, não me esqueci do que ia dizer. Não me lembro é da ordem das palavras, mas sei exactamente – exactamente, pois – o que elas queriam dizer. Era… Era… uma coisa muito importante. (Pausa.) Só desejo que tenhais vindo também, como eu, por uma coisa muito importante. Nem doutro modo vos estimaria. (Pausa.) Para mim e para vocês, o mais importante é cada um de nós. Nem estamos aqui para outra coisa. É isto o que nos interessa – nós estarmos vivos. Vamos espreitar para tantos vivos que houve antes de nós e para tantos outros que há em volta de nós, para aprendermos a estar vivos. Antes de começar, pressinto que tudo vai acontecer bem. Temos aqui dentro desta sala tudo quanto nos é necessário – somos nós. Ainda que algum de vocês tenha vindo hoje aqui por acaso, não faz mal nenhum, é isto o que faz as pessoas – ter a certeza do acaso. Agora vou soltar palavras, pôr palavras à solta por cima das cabeças à espera de corações. (Pausa.) As pessoas estão sentadas à espera de ver se gostam. O verbo gostar. Hã. Ainda bem que nem eu nem vocês fazemos parte do público. Vai começar. (Pausa.) Não duvideis de mim, porque é a dúvida – ter a dúvida é saber exactamente o que estou a dizer. Vai começar. Vai começar. (Pausa.) Como vedes, começa pelo princípio. Quantos ramos de flores e quantas navalhas abertas trazem vocês aí nas mãos, atrás das costas? Não digam, não respondam. Acreditam que se pode esconder o que se pensa? Já repararam nos meus olhos? Reparem bem nos meus olhos, não são meus, são os olhos do nosso século. Os olhos que furam por detrás de tudo, vai começar. Minhas senhoras e meus senhores, vai começar!
Jacinto Lucas Pires - Exactamente Antunes 


Ter a dúvida é saber exactamente o que estou a dizer,
o Homem do Meio.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

You

"Everyone has an Angel. A Guardian who watches over us. We can't know what form they'll take. One day, old man. Next day, little girl. But don't let appearances fool you, they can be as fierce as any dragon. Yet they're not here to fight our battles, but to whisper from our heart. Reminding that it's us. Its everyone of us who holds power over the world we create. 
You can deny angels exist, Convince ourselves they can't be real. But they show up anyway, at strange places and at strange times. They can speak through any character we can imagine. They'll shout through demons if they have to. Daring us, challenging us to fight. 
And finally this question, the mystery of who's story it will be. Of who draws the curtain. Who is it that chooses our steps in the dance? Who drives us mad? Lashes us with whips and crowns us with victory when we survive the impossible? Who is it, that does all of these things? Who honors those we love for the very life we live? Who sends monsters to kill us, and at the same time sings that we will never die? Who teaches us what's real and how to laugh at lies? Who decides why we live and what we'll die to defend? Who chains us? And Who holds the key that can set us free...
It's You. You have all the weapons you need."

from the motion picture Sucker Punch

o Homem do Meio.

domingo, 9 de dezembro de 2012

The Key - parte 2

Sente as 11 passarem a 12 enquanto espera. A sua pulsação frenética funde-se com o mover dos ponteiros do relógio de pulso. Na antiga catedral só encontra um banco antigo, tudo o resto foi levado. Os vidrais partidos ilustram o abandono que habita por aquelas paragens.

O mínimo barulho ou ranger de madeira podre traduz-se numa injecção de adrenalina. À sua cintura sente o frio do metal do seu revólver, pronto a ser chamado a agir. Está à espera de algo, a sua agitação sabe-o.

Ao longe ouvem-se disparos. Num estrondo abrem-se as portadas por alguém ter violentamente chocado contra elas. É ela por quem esperava. Mantém-se inerte no centro do salão enquanto tenta perceber o que se passava lá fora, coisa que a luminosidade que de lá vem impossibilita. A rapariga levanta-se, ferida, de arma em punho e coldre na coxa. Atira-lhe um objecto negro com urgência enquanto grita, de lágrimas no rosto: "Corre!". A adrenalina mistura-se com uma mágoa imensa. Instintivamente, vira-se e corre para a porta das traseiras. Ouve-se um disparo. A sua bota força com que a porta se abra.

Acorda. No peito sente um aperto asfixiante. Na mão mantém o objecto negro: a chave.

o Homem do Meio.