Dá-me dois minutos. Deixa-me só por mais dois minutos.
Eu sei que o meu ego está a sangrar para cima da minha camisa, mas não te preocupes, a ferida sara e a camisa lava-se, agora deixa-me por dois minutos.
Não quero saber que toda a gente esteja a olhar, por mim podes até empoleirar-te em cima de um caixote para apregoares a minha história, mas fá-lo com sossego por dois minutos.
Não me toques, não chores, não grites, não peças ajuda por mim, eu fico bem, hei-de ficar assim que passarem os dois minutos.
Eu sei exactamente o que me deixou assim, e fiz por escolha, então se tem que doer que doa, porque é assim que tem de ser, é sinal que sou humano, nem que seja apenas por dois minutos.
Deixa que doa, deixa que ate a minha mente à volta das minhas feridas, deixa que pense em como elas lá foram parar. Deixa-me racionalizar por dois minutos, deixa que doa por dois minutos e eu fico bem.
Daqui a dois minutos vou-me levantar e andar até casa, ou até ao próximo beco, preparado para mais uma tareia, mas fá-lo-ei consciente.
Deixa-me só descansar os olhos.
Só por dois…só por dois minutos…
Só por dois minutos,
o Homem do Meio.
sábado, 14 de junho de 2014
sexta-feira, 14 de junho de 2013
For the Better / Slow
Ela sussurrava ao meu ouvido para abrandar. Os meus passos continuavam meio tempo mais rápidos do que a batida e, naturalmente, do que os seus. Sem surpresas, o número dos pedidos de desculpa que eu atirava na sua direcção tinham também uma maior cadência. E naquele período, onde o pânico se misturava com a vergonha e ambos toldavam a minha percepção dos contornos da sua face (a dúvida mantinha-se, será um sorriso de pena ou de diversão?), consegui um intervalo de uma fracção de segundo (se fosse pelas aparências teriam sido umas horas e ela seria loira) para pôr as ideias em dia:
"I've been doing this for a while..."
O namorado dela eventualmente apareceu. Se tivesse sido mais rápido...
(Nenhum par de sapatos foi ferido na escrita deste post)
o Homem do Meio.
quarta-feira, 6 de março de 2013
A Dúvida
Peço desculpa. Hoje não estou nos meus dias. Ontem sim, ou anteontem. Desculpem. Desculpem hoje não ser dos meus dias. Mas isto estava marcado para hoje, tem de ser hoje. Peço desculpa. Porém, tive uma ideia, que me parece que não é para desprezar. Não me lembro do que tinha de dizer. Quer dizer, não me esqueci do que ia dizer. Não me lembro é da ordem das palavras, mas sei exactamente – exactamente, pois – o que elas queriam dizer. Era… Era… uma coisa muito importante. (Pausa.) Só desejo que tenhais vindo também, como eu, por uma coisa muito importante. Nem doutro modo vos estimaria. (Pausa.) Para mim e para vocês, o mais importante é cada um de nós. Nem estamos aqui para outra coisa. É isto o que nos interessa – nós estarmos vivos. Vamos espreitar para tantos vivos que houve antes de nós e para tantos outros que há em volta de nós, para aprendermos a estar vivos. Antes de começar, pressinto que tudo vai acontecer bem. Temos aqui dentro desta sala tudo quanto nos é necessário – somos nós. Ainda que algum de vocês tenha vindo hoje aqui por acaso, não faz mal nenhum, é isto o que faz as pessoas – ter a certeza do acaso. Agora vou soltar palavras, pôr palavras à solta por cima das cabeças à espera de corações. (Pausa.) As pessoas estão sentadas à espera de ver se gostam. O verbo gostar. Hã. Ainda bem que nem eu nem vocês fazemos parte do público. Vai começar. (Pausa.) Não duvideis de mim, porque é a dúvida – ter a dúvida é saber exactamente o que estou a dizer. Vai começar. Vai começar. (Pausa.) Como vedes, começa pelo princípio. Quantos ramos de flores e quantas navalhas abertas trazem vocês aí nas mãos, atrás das costas? Não digam, não respondam. Acreditam que se pode esconder o que se pensa? Já repararam nos meus olhos? Reparem bem nos meus olhos, não são meus, são os olhos do nosso século. Os olhos que furam por detrás de tudo, vai começar. Minhas senhoras e meus senhores, vai começar!
Jacinto Lucas Pires - Exactamente Antunes
Ter a dúvida é saber exactamente o que estou a dizer,
o Homem do Meio.
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
You
"Everyone has an Angel. A Guardian who watches over us. We can't know what form they'll take. One day, old man. Next day, little girl. But don't let appearances fool you, they can be as fierce as any dragon. Yet they're not here to fight our battles, but to whisper from our heart. Reminding that it's us. Its everyone of us who holds power over the world we create.
You can deny angels exist, Convince ourselves they can't be real. But they show up anyway, at strange places and at strange times. They can speak through any character we can imagine. They'll shout through demons if they have to. Daring us, challenging us to fight.
And finally this question, the mystery of who's story it will be. Of who draws the curtain. Who is it that chooses our steps in the dance? Who drives us mad? Lashes us with whips and crowns us with victory when we survive the impossible? Who is it, that does all of these things? Who honors those we love for the very life we live? Who sends monsters to kill us, and at the same time sings that we will never die? Who teaches us what's real and how to laugh at lies? Who decides why we live and what we'll die to defend? Who chains us? And Who holds the key that can set us free...
It's You. You have all the weapons you need."
from the motion picture Sucker Punch
o Homem do Meio.
You can deny angels exist, Convince ourselves they can't be real. But they show up anyway, at strange places and at strange times. They can speak through any character we can imagine. They'll shout through demons if they have to. Daring us, challenging us to fight.
And finally this question, the mystery of who's story it will be. Of who draws the curtain. Who is it that chooses our steps in the dance? Who drives us mad? Lashes us with whips and crowns us with victory when we survive the impossible? Who is it, that does all of these things? Who honors those we love for the very life we live? Who sends monsters to kill us, and at the same time sings that we will never die? Who teaches us what's real and how to laugh at lies? Who decides why we live and what we'll die to defend? Who chains us? And Who holds the key that can set us free...
It's You. You have all the weapons you need."
from the motion picture Sucker Punch
o Homem do Meio.
domingo, 9 de dezembro de 2012
The Key - parte 2
Sente as 11 passarem a 12 enquanto espera. A sua pulsação frenética funde-se com o mover dos ponteiros do relógio de pulso. Na antiga catedral só encontra um banco antigo, tudo o resto foi levado. Os vidrais partidos ilustram o abandono que habita por aquelas paragens.
O mínimo barulho ou ranger de madeira podre traduz-se numa injecção de adrenalina. À sua cintura sente o frio do metal do seu revólver, pronto a ser chamado a agir. Está à espera de algo, a sua agitação sabe-o.
Ao longe ouvem-se disparos. Num estrondo abrem-se as portadas por alguém ter violentamente chocado contra elas. É ela por quem esperava. Mantém-se inerte no centro do salão enquanto tenta perceber o que se passava lá fora, coisa que a luminosidade que de lá vem impossibilita. A rapariga levanta-se, ferida, de arma em punho e coldre na coxa. Atira-lhe um objecto negro com urgência enquanto grita, de lágrimas no rosto: "Corre!". A adrenalina mistura-se com uma mágoa imensa. Instintivamente, vira-se e corre para a porta das traseiras. Ouve-se um disparo. A sua bota força com que a porta se abra.
Acorda. No peito sente um aperto asfixiante. Na mão mantém o objecto negro: a chave.
o Homem do Meio.
O mínimo barulho ou ranger de madeira podre traduz-se numa injecção de adrenalina. À sua cintura sente o frio do metal do seu revólver, pronto a ser chamado a agir. Está à espera de algo, a sua agitação sabe-o.
Ao longe ouvem-se disparos. Num estrondo abrem-se as portadas por alguém ter violentamente chocado contra elas. É ela por quem esperava. Mantém-se inerte no centro do salão enquanto tenta perceber o que se passava lá fora, coisa que a luminosidade que de lá vem impossibilita. A rapariga levanta-se, ferida, de arma em punho e coldre na coxa. Atira-lhe um objecto negro com urgência enquanto grita, de lágrimas no rosto: "Corre!". A adrenalina mistura-se com uma mágoa imensa. Instintivamente, vira-se e corre para a porta das traseiras. Ouve-se um disparo. A sua bota força com que a porta se abra.
Acorda. No peito sente um aperto asfixiante. Na mão mantém o objecto negro: a chave.
o Homem do Meio.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Half of the meaning
Não somos os nossos problemas, mas antes a resolução que escolhemos para eles. Não somos o dinheiro que temos, mas antes a riqueza que procuramos para nós. Eu não sou aquele que vês numa foto antiga, já depois de a tirar não o era. Não sou uma resposta, mas é bom que deixe em ti um conjunto de perguntas amotinadas. Não sou uma conclusão, pelo menos não para já.
Tal como aquilo que parecemos ser é apenas um toque naquilo que somos de verdade, encontramos também numa língua diferente da nossa a dificuldade inerente em expressarmos o significado que a nossa mente construiu. Aquilo que queríamos dizer já se perdeu quando abrimos a boca e parece sempre ficar aquém.
Engraçado, mas também eu sou uma metáfora para tudo isto. Também eu quis dizer o que sentia, e a única coisa que consegui foi ficar...a meio.
Tal como a minha escrita nunca conseguiu chegar aos calcanhares daquilo que a revolução química das minhas emoções alguma vez desenhou,
o Homem do Meio.
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
Só de mim
A forma fácil de entregar uma mensagem.
E ver as pessoas que pararam para escutar.
Inspire yourself,
o Homem do Meio.
E ver as pessoas que pararam para escutar.
Inspire yourself,
o Homem do Meio.
sexta-feira, 2 de novembro de 2012
No goodbyes
Não nos despedimos.
Não marcámos o final como sendo derradeiro, porque o que é verdadeiramente bom nunca acaba, talvez que se prolongue no tempo, estilhaçado em memórias. Não comemorámos o novo início porque nenhum de nós o viu com olhos de quem anseia.
Para com todos os outros houve um "até já". Mas não para nós.
Deixamos os espaços em branco serem preenchidos pelo implícito do momento e de tudo aquilo que a confiança nos mostrou como verdadeiro.
Não nos despedimos.
Dissemos o nosso "até amanhã", seja ele qual for.
Seja ele qual for,
o Homem do Meio.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Wayfarin'
"I'm just a poor wayfarin' stranger,
While travelin' through this world alone.
Yet there's no sickness, no toil, nor danger,
In that bright land to which I go."
- Jamie Woon - Wayfaring Stranger
While travelin' through this world alone.
Yet there's no sickness, no toil, nor danger,
In that bright land to which I go."
- Jamie Woon - Wayfaring Stranger
Sentei-me numa poltrona a apreciar o meu café, como tantas vezes fiz. Escolhi o lugar perto da janela para poder observar a intempérie que se formou lá fora. Mas, na verdade, quero afirmar aquilo que me trouxe até 2000 km de casa.
Sou um homem simples, com uma história para contar, que de extraordinária tem pouco. Como toda a gente terá a sua. Tive a sorte de agarrar as oportunidades certas e o mérito de as manter a meu favor. Pelo caminho descobri aquilo que realmente quero fazer e em quem me quero tornar. Acompanho o meu café com um sentimento de satisfação por ter chegado até aqui.
Portanto, sentei-me à janela para que esta metáfora me embale e que sussurre ao ouvido que finalmente já não sou aquele que se mantém de fora a olhar para aquilo que quer para si. Entrei, pedi um café e sentei-me.
Depois de uma longa viagem, estou finalmente onde quero,
o Homem do Meio.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Yesterday
"Because, because, our paths, they crossed."
A vida é frágil.
Foge-nos por entre os dedos, e enquanto o faz, atropelam-se as preces para saber qual chega primeiro a quem de direito ouvi-las, enquanto se faz o muito que poderá servir de pouco.
A incredulidade ensurdece, e é só no sossego onde finalmente ganha forma para nos tocar no ombro e acenar afirmativamente.
Porque quiseram os nossos caminhos cruzar-se,
o Homem do Meio.
A vida é frágil.
Foge-nos por entre os dedos, e enquanto o faz, atropelam-se as preces para saber qual chega primeiro a quem de direito ouvi-las, enquanto se faz o muito que poderá servir de pouco.
A incredulidade ensurdece, e é só no sossego onde finalmente ganha forma para nos tocar no ombro e acenar afirmativamente.
Porque quiseram os nossos caminhos cruzar-se,
o Homem do Meio.
domingo, 18 de março de 2012
Avenue
A avenida rodeia-se de grandes edifícios, linhas retas, nomes imponentes. A azáfama que a preenche nas primeiras horas do dia fá-lo também quando ele acaba. O sol desce e o caminho para casa é agora feito com uma calma ilustrativa de um sentimento de dever cumprido, ou talvez cansaço, ou até, quem sabe, uma vontade de demorar por aquelas moradas. A avenida tem disto. De tudo e de nada, para que se lembre quem por ali passa o que é ter e o que é não ter. A avenida mostra um lado talvez irreal de uma cidade que já viveu melhores dias, mas pela qual trabalha para que isso melhore. Mostra o resultado de grandes ideias e por isso incentiva quem por lá passa a tê-las para que o seu nome faça parte de algo maior.
Das primeiras vezes que vi a avenida, foi isto que me veio à cabeça. Mais que um aglomerado de betão e vidro, era um significado. Lembro-me de partilhar conversas enquanto passava por ela, lembro-me de falar sobre o quanto gostava de estar ligado àquele ambiente, lembro-me de sentir um reboliço por dentro que me fez agarrar áquilo que pude para estar cada vez mais perto…
O que me ocupa a mente tem a vontade de empurrar para o lado estes antigos objetivos escritos a sonho. Mas naquele final de tarde, juntamente com a melancolia, a avenida fez-me lembrar as conversas que se tiveram e o gosto por aquele ambiente de inovação e empreendedorismo. Lembrou-me o quanto aprendi. O quando de mim inventei. O quanto de mim descobri.
Hoje em dia caminho diariamente pela avenida.
E a vontade de ficar não mudou,
o Homem do Meio.
segunda-feira, 5 de março de 2012
The Key - Parte 1
Levantou-se devagar depois de dar por si sentado no chão, junto a um dos pilares do parque de estacionamento. Sentia a cabeça a latejar, tonturas e um enjoo sintomático de um possível traumatismo. A boca sabia a sangue, as suas mãos e roupas estavam cobertas dele. Não se lembrava do que o poderia ter levado ali, ou do que o poderia ter deixado naquele estado. Já de pé, as dores de cabeça aumentavam e a sensação de vertigem também. Decidiu caminhar em direcção à luz que emoldurava uma das portas à sua frente. Talvez uma saída, perfeita para ele, que só pensava em poder respirar ar puro. Enquanto caminhava - devagar e aos ésses - percorria com as mãos a sua roupa à procura de algo. Além da carteira completamente vazia, do telemóvel partido (que tinha retirado do chão) e da camisa branca tingida de sangue, sobrava um pequeno objecto preto, brilhante, com algumas saliências e uns quantos botões que se conseguiam distinguir com o toque. Parou de andar. A visão turva não o deixava perceber sequer os seus contornos, e não tinha qualquer recordação de trazer consigo algo parecido.
Aquilo que mais lhe chamava a atenção era um botão em forma de losango, prateado, alinhado ao centro. Sem sequer pensar, resolveu carregar. Que nem uma navalha de ponta e mola, saltou de dentro do tal objecto misterioso uma chave, o que o levou a pensar que seria a chave de um carro. E enquanto se interrogava sobre a origem daquela chave, ao longe, no escuro, ligavam-se dois faróis. Uma ignição, e ligava-se um motor de trabalhar rouco. Com um arranque violento, este carro avançava como um relâmpago em direcção a ele, demasiado fraco para correr para refúgio.
Acordou, lavado em suor, sentado involuntariamente na cama e com a cabeça ainda a latejar. Olha em volta para descobrir que está no seu quarto, onde se deitou faz algumas horas. A sua respiração ofegante acalma.
Na sua mesa de cabeceira descansa a chave que encontrou no sonho. E tal como então, a sua origem continua uma surpresa.
To be continued,
o Homem do Meio.
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Partilhável
"(...)
E não importa se estivermos no mesmo lugar apenas por um instante há cinco anos, não importa se nunca estivemos no mesmo lugar, aquilo que realmente importa é o segredo luminoso que partilhamos. Não é feito de palavras, mas é transportado por elas. Esse é o nosso lugar, temos almas a vaguear nesse universo de sentido. Vocês mostram-me todos os dias que a generosidade pode salvar. Vocês têm muitos rostos, muitas histórias. Eu ouço-vos e encho-me de esperança humana, de amor humano, e transbordo. Mesmo quando estou em silêncio, agradeço-vos por me acrescentarem um sentido tão profundo. Estar-vos grato é estar grato ao mundo inteiro, ao fácil e ao difícil, ao doce e ao amargo. Sem um, não existiria o outro. Mesmo. Sem um, não existiria o outro, repito para que não restem dúvidas. Chegou a hora de, todos juntos, agradecermos pelas contrariedades. São elas, por mais feias, que nos permitem alcançar aquilo que está para lá delas. Ao mesmo tempo, são essas contrariedades, esses silêncios, que nos permitem prestar atenção ao que realmente nos interessa e que, como uma fogueira, nos ilumina o rosto.
Porque nos encontrámos, somos uma espécie de irmãos. Fomos capazes de existir sobrepostos e, por mais ou menos tempo, partilhámos a experiência partilhável. Se amanhã tudo se desfizer, saberemos que nos tocámos e espero que, perante o fim, sejamos capazes de nos sentir gratos pelo que tivemos e que é bastante mais do que a maioria das pessoas alguma vez chega a ter."
- José Luís Peixoto, in Visão, 9 de Fevereiro de 2012
Ainda por cá,
o Homem do Meio.
E não importa se estivermos no mesmo lugar apenas por um instante há cinco anos, não importa se nunca estivemos no mesmo lugar, aquilo que realmente importa é o segredo luminoso que partilhamos. Não é feito de palavras, mas é transportado por elas. Esse é o nosso lugar, temos almas a vaguear nesse universo de sentido. Vocês mostram-me todos os dias que a generosidade pode salvar. Vocês têm muitos rostos, muitas histórias. Eu ouço-vos e encho-me de esperança humana, de amor humano, e transbordo. Mesmo quando estou em silêncio, agradeço-vos por me acrescentarem um sentido tão profundo. Estar-vos grato é estar grato ao mundo inteiro, ao fácil e ao difícil, ao doce e ao amargo. Sem um, não existiria o outro. Mesmo. Sem um, não existiria o outro, repito para que não restem dúvidas. Chegou a hora de, todos juntos, agradecermos pelas contrariedades. São elas, por mais feias, que nos permitem alcançar aquilo que está para lá delas. Ao mesmo tempo, são essas contrariedades, esses silêncios, que nos permitem prestar atenção ao que realmente nos interessa e que, como uma fogueira, nos ilumina o rosto.
Porque nos encontrámos, somos uma espécie de irmãos. Fomos capazes de existir sobrepostos e, por mais ou menos tempo, partilhámos a experiência partilhável. Se amanhã tudo se desfizer, saberemos que nos tocámos e espero que, perante o fim, sejamos capazes de nos sentir gratos pelo que tivemos e que é bastante mais do que a maioria das pessoas alguma vez chega a ter."
- José Luís Peixoto, in Visão, 9 de Fevereiro de 2012
Ainda por cá,
o Homem do Meio.
sábado, 21 de janeiro de 2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
The War
"Lose, if you have to."
Há sempre destas músicas para nos ajudar nas nossas retrospecções. E calha bem ser esta, porque se bem me lembro, passei 2011 a lutar, raio de ano. Passámos, não será? Pelo meio ganharam-se algumas lutas, perderam-se outras. Fizeram-se inimigos, que se taparam com os amigos que ganhámos entretanto. Houve noites mal dormidas e esforço inglório na aparência que foram correctamente compensados com brindes, leviandades e primeiras vezes.
Lutamos imenso, e quer a injustiça da vida que levamos que se perca mais que se ganhe. Mas continuamos a fazê-lo, a abrir o peito às balas e a gritar "quero mais" por conhecermos tão bem a sensação de vencer.
Como um amigo diz: "Espero que traves sempre o bom combate". E assim o faremos, sem dúvida.
Let us drink to that!,
o Homem do Meio.
domingo, 25 de dezembro de 2011
Sou Eu
"Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio!"
Sou eu - Álvaro de Campos
Quando me levantar já não me volto a sentar.
Quando me calar já não volto a falar assim.
Quando sair já não volto a encontrar a mesma porta aberta.
Amanhã por esta hora celebra-se um final. Verdade seja dita...
Já tenho saudades,
o Homem do Meio.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
The Slowest Man On Earth
Uma coisa que em geral não faço é correr para apanhar transportes. Portanto não sei o que me deu para o fazer. O que sei é que se não tenho cuidado com o chão molhado ainda fazia uma entrada de pés juntos à rapariga que esperava para entrar na carruagem. Um pequeno slide, de uns ténis que eu não sabia que escorregavam. Malandros. Eu assusto-a, e logo de seguida peço desculpa ao mesmo tempo que me começo a rir. E a corar. Ela rapidamente me liberta de qualquer culpa e entramos na carruagem. Ela senta-se e eu, por falta de lugar, fico de pé junto à entrada. Aparenta ter a minha idade, é morena, cabelo liso, comprido. Aquele vestido ficava-lhe muito bem, para não falar daqueles botins de cano alto e as meias até ao joelho. Sim, é verdade, fiquei a olhar. Ela era gira, que posso dizer?
A carruagem começa a esvaziar, e três estações a seguir fica um lugar vago à frente dela. Adivinhem quem aproveitou? Se disseram a senhora que estava de pé mesmo ao lado, acertaram. Poker face. Mas na estação a seguir vem uma boa oportunidade. Na mesma à frente dela, mas desta vez ao pé da janela, vagou um lugar. Eu aproveito, “com licença, obrigado”, sento-me e volto a levar os auriculares aos ouvidos. Ela ainda se ri. Olho para ela, começo-me a rir também, abano a cabeça.
A parte que se segue está alinhada com duas manias que tenho: Número 1, sempre que ando de metro e me sento junto à janela, uso o reflexo dela nos túneis para olhar indirectamente para as pessoas à minha volta. Mas acho que não serei o único; Número 2, com o cabelo grande (maiorzinho, vá), ganhei o hábito de lhe mexer quando não tenho mais nada que fazer. Meto os dedos junto à testa e prossigo até que a palma esteja no topo da cabeça. Várias vezes. Fiz esta última e quando olho para o reflexo, ela está a olhar para mim. Pelo canto do olho, enquanto segura nos apontamentos, sorrisinho na cara. Eu não sou a pessoa mais confiante do mundo, portanto tudo isto estava-me a dar um gozo imenso. Claro. Viro-me calmamente, olho para a frente, olho para ela (que ainda olhava para mim), e pela velocidade com que colocou os olhos de volta aos apontamentos, não estava à espera de ser apanhada. Eu rio. Ela também.
Chega a paragem dela, antes da minha. Levanta-se, pega na mala, guarda os apontamentos, dá por mim a olhar para ela. Levanta-se, olha para trás. O metro pára. Olha para trás. Enquanto sai, olha para trás. Foi ela a pisar o chão da estação e eu a ouvir a ficha a cair. Depois de passar a porta, olha para mim pelo vidro. Eu nunca desviei os olhos. Estranho em mim, garanto. E se me tenho levantado um segundo antes (não depois) do aviso de fecho de portas, aposto que ainda a apanhava.
De qualquer forma, se não deu para mais, deu para me aumentares o ego. E obrigado.
Vejo-te...nunca?
o Homem do Meio.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Há em mim
"Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada.
O meu barco vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando em fim se cala."
Há em mim um eterno romântico. Um eterno romântico que ainda vê velas acesas nos candeeiros da cidade. Que ouve atentamente o silêncio como se de uma palestra se tratasse e que caminha mais devagar quando chega à noite, sempre de mãos nos bolsos enquanto se luta contra a estranheza de não ter o que tocar com elas. Que olha o pôr e o nascer-do-sol como se fosse um primeiro beijo. E que sente a música como uma carícia.
Vergonhas têm-nas aqueles que se dão ao luxo de brincar ao Carnaval durante uma vida. Para todos os outros, há a leveza da definição de espírito e da nudez de subterfúgios e enganos. Onde vida não tarda e apresenta-se sem atrasos.
Há em mim um eterno romântico.
E em vocês, o que é que há?
o Homem do Meio.
O meu barco vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando em fim se cala."
Há em mim um eterno romântico. Um eterno romântico que ainda vê velas acesas nos candeeiros da cidade. Que ouve atentamente o silêncio como se de uma palestra se tratasse e que caminha mais devagar quando chega à noite, sempre de mãos nos bolsos enquanto se luta contra a estranheza de não ter o que tocar com elas. Que olha o pôr e o nascer-do-sol como se fosse um primeiro beijo. E que sente a música como uma carícia.
Vergonhas têm-nas aqueles que se dão ao luxo de brincar ao Carnaval durante uma vida. Para todos os outros, há a leveza da definição de espírito e da nudez de subterfúgios e enganos. Onde vida não tarda e apresenta-se sem atrasos.
Há em mim um eterno romântico.
E em vocês, o que é que há?
o Homem do Meio.
sábado, 29 de outubro de 2011
This Time Around
"(...)When I meet you, in that moment, I’m no longer a part of your future.
I start quickly becoming part of your past.
But in that instant, I get to share your present.
And you, you get to share mine.
And that is the greatest present of all.
So if you tell me I can do the impossible, I’ll probably laugh at you.
I don’t know if I can change the world yet, because I don’t know that much about it – and I don’t know that much about reincarnation either, but if you make me laugh hard enough, sometimes I forget what century I’m in.
This isn’t my first time here.
This isn’t my last time here.
These aren’t the last words I’ll share.
But just in case, I’m trying my hardest to get it right this time around."
by Sarah Kay - Hiroshima
Sabem tão bem quanto eu que até pode ser num pacote de açúcar. Num cartaz publicitário. Numa conversa interceptada numa viagem de metro. Em qualquer lugar, em qualquer altura, vai haver alguém que nos consegue surpreender com aquelas ideias que de tão óbvias, conseguem dançar à nossa frente e falar por nós, sem que as vejamos.
Uma boa noite,
o Homem do Meio.
I start quickly becoming part of your past.
But in that instant, I get to share your present.
And you, you get to share mine.
And that is the greatest present of all.
So if you tell me I can do the impossible, I’ll probably laugh at you.
I don’t know if I can change the world yet, because I don’t know that much about it – and I don’t know that much about reincarnation either, but if you make me laugh hard enough, sometimes I forget what century I’m in.
This isn’t my first time here.
This isn’t my last time here.
These aren’t the last words I’ll share.
But just in case, I’m trying my hardest to get it right this time around."
by Sarah Kay - Hiroshima
Sabem tão bem quanto eu que até pode ser num pacote de açúcar. Num cartaz publicitário. Numa conversa interceptada numa viagem de metro. Em qualquer lugar, em qualquer altura, vai haver alguém que nos consegue surpreender com aquelas ideias que de tão óbvias, conseguem dançar à nossa frente e falar por nós, sem que as vejamos.
Uma boa noite,
o Homem do Meio.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Promise
"Maybe, just maybe I'll come home."
"...deixe a sua mensagem após o sinal."
Olá, sou eu.
Está quase no fim. É óptimo, não é? Não te sei dizer o número de vezes que pensei no final. Não sabe a nada, sabes? É mais um ponto final daqueles que coleccionamos...
Isto pode cair como uma surpresa, mas telefonei para to dizer...
Não vou voltar para casa. Não por agora. Mas eu volto, prometo. E tu sabes que eu cumpro as minhas promessas.
Não por agora,
o Homem do Meio.
"...deixe a sua mensagem após o sinal."
Olá, sou eu.
Está quase no fim. É óptimo, não é? Não te sei dizer o número de vezes que pensei no final. Não sabe a nada, sabes? É mais um ponto final daqueles que coleccionamos...
Isto pode cair como uma surpresa, mas telefonei para to dizer...
Não vou voltar para casa. Não por agora. Mas eu volto, prometo. E tu sabes que eu cumpro as minhas promessas.
Não por agora,
o Homem do Meio.
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